Foyer Aberto: Música Checa IV

No programa incicial, dizia "programa a anunciar". E nesses, nunca fiando... Recebi hoje a newsletter a dizer que afinal era Mozart, Brahms e Dvorák, e fiquei logo curioso. O repertório teve sequência visto que as peças de Mozart eram daquelas mais para a frentex.
Cantaram Musa Nkuna e João Merino (substituindo Fischetti). O primeiro não sondou o espaço onde ia cantar, pelo que alguns momentos lhe saíram um pouco mais pesados e os pianíssimos expirados. O outro cantou bem. Uma coisa que eu aprendi com uma masterclass da Grande Diva Schwarzkopf foi que quem canta em alemão deve ter cuidado para não perder letras nem sons. Se não, o canto "empapa" e fica tudo "horrível", como ela dizia. Estes senhores deviam prestar atenção a isso.
Canções ao piano de Mozart, Brahms e Dvorák? Com um intermezzo para piano solo de Brahms? Sempre nice!

A Autobiografia de António Victorino d'Almeida

Recentemente, o ilustre artista nacional, cujas artes passam, além da música, pela escrita e pelo cinema, lançou a sua auto-biografia:

PVP: 24,95 € 608 Páginas + Extratextos
Mais de 600 páginas e dezenas de fotografias, algumas inéditas, dão a conhecer aquele que se viria a tornar umas das figuras mais destacadas do actual panorama cultural do país. Compositor, pianista, maestro, escritor, comunicador nato, eis a autobiografia de António Victorino d’Almeida quando, ao princípio, era ele.
António Victorino Goulart de Medeiros e Almeida nasceu em Lisboa a 21 de Maio de 1940. Aluno de Campos Coelho, finalizou o Curso Superior de Piano do Conservatório Nacional de Lisboa com 19 valores e diplomou-se em Composição pela Escola Superior de Música da cidade de Viena.
Pianista, compositor e maestro, é ainda autor da adaptação para teatro musicado de A Relíquia, de Eça de Queirós, e realizou o filme A Culpa - primeira longa-metragem portuguesa a vencer um festival de cinema no estrangeiro (Huelva, 1980).
Como escritor, publicou, entre outros, Histórias de Lamento e Regozijo, Coca-Cola Killer, Um Caso de Biografia, Polissário, Tubarão 2000, Memória da Terra Esquecida, O Que é a Música, Toda a Música que eu Conheço (2 vols.), Os Devoradores de Livros e Músicas da Minha Vida.
Escreveu, apresentou e realizou mais de uma centena de documentários culturais para a televisão, foi membro do júri do Concurso de Piano de Moscovo e é actualmente Presidente do Sindicato dos Músicos Portugueses.
(Newsletter da editora Clube do Leitor.)

Casta Diva nos Simpsons

Menos na sequência deste blog, apresento a 'Casta Diva' do episódio "Mr Plow", da 4.ª temporada da série de Matt Groening. Alguém sabe quem canta?

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Das Rheingold | Met Live in HD

O meu interesse em ver esta produção, antes de ser pela excelente direcção musical ou pela qualidade dos cantores, era pela encenação, que correspondeu para cima de 100% à minha expectativa. Lepage recorre ao simples do ponto de vista visual para chegar à perfeição -- que muitos tentam alcançar sem sucesso pela complexidade. Nesta linha de pensamento, talvez tenha achado o esquema de luzes das cenas dos gigantes um pouco sobretrabalhada. Para a próxima, haverá decerto melhorias que distingam o 19,5 do 20.

Alberich tenta trepar até às filhas do Reno, sendo que escorrega (está no libretto) numa espécie de bolas que podemos observar que deslizavam em função de como tentava trepar o nibelungo.
Alberich renuncia e maldiz o amor e rouba o ouro do Reno às 3 creaturas que o provocavam e gozavam.
Freia implora que não seja oferecida aos gigantes.
Loge consola Freia com a energia do seu fogo.
Os gigantes Fasolt e Fafner acabaram o seu trabalho; agora, exigem o pagamento previamente combinado com Wotan: Freia. Nesta parte, apenas Fricka, sua irmã e esposa de Wotan a protege inteiramente, antes de chegarem os outros irmãos.
Chegam os irmãos -- Froh e Donner --, que pretendem salvar Freia "à força". Wotan, sem saber o que fazer, impede-os.
Wotan segue Loge na descida para Nibelheim. Note-se que se as filhas do Reno desafiavam a gravidade a seguir ao prelúdio, esta cena (que se repetiu para a ascenção à montanha dos deuses) ainda a desafiava mais: os dois personagens, tal como se vê, andavam paralelos ao chão (suspensos por cabos, claro), num timing perfeitamente sincronizado com a música e as bigornas!
Alberich recebe o tarnhelm de Mime.
O fabuloso Mime conta a Loge e a Wotan as façanhas de seu irmão Alberich, que escravizava os nibelungos.
Wotan e Loge desafiam Alberich a demonstrar o poder do tarnhelm...
... e Alberich transforma-se numa gigantesca serpente. Eu vi este momento concebido com uma projecção da espinha do monstro diferente: não havia quaisquer labaredas, pelo que o cenário era mais discreto e a serpente mais bem concebida. Esperto, Loge desafia o nibelungo a tornar-se pequeno como um sapo; e este transforma-se num sapo grande e obeso que fez todo o público rir no Met. Depois prendem-no dentro de uma espécie de pote.
Já na montanha dos deuses, Wotan exige em troca da liberdade do nibelungo todo o ouro do outro.

Wotan tira o derradeiro pedaço de ouro de Alberich -- o anel -- e sente o seu poder. Mais interessante seria arranjar imagens de quando ele o empunhava reluzente na mão e o olhava. Terfel actou muito bem nessa cena. Repare-se também na imagem de cartaz, que publicita a genial caracterização de Wotan, com o cabelo pendente sobre o olho que não tem. Fantástico, hem?
Fricka e seus irmãos tentam convencer Wotan a prescindir do anel do poder.
Desenrolada a história, os deuses ascendem ao tão desejado Walhala pelo caminho do arco-íris numa cena estupendamente bem concebida com a plataforma do cenário.
Como Wotan, Terfel foi arrasador. Cantou, actuou... não lhe faltou nada!
Eric Owens, apesar de ser negro, não tinha a voz tão negra como eu gostaria de ouvir a Alberich (metáfora?). Ainda assim, foi arrasador. E um óptimo actor!
Loge foi cantado por Richard Croft, e fez um papelão!...
Mime. Mime? ARRASADOR!! Óptima voz, e actuação ainda melhor. Sem falhas! No entanto, pergunto-me se conseguirá envelhecer ao ponto de ficar o velho traidor de «Siegfried». Saberemos daqui a um ano.

É pena não termos visto uma transmissão em directo. De qualquer modo, acho que uma semana foi tempo suficiente para se ter corrigido e reposto a parte que se saltou do 2.º quadro, quando chegavam Froh e Donner! O grande auditório não encheu por pouco. É um projecto para continuar  -- e AO VIVO.

Todas as imagens contidas neste post são da autoria de Ken Howard/Metropolitan Opera e foram retiradas daqui.

O Pássaro de Fogo (Stravinsky) @ Gulbenkian, 15 de Outubro 2010

A espectativa era elevada. Todos nós temos vindo a descobrir que Joana Carneiro tem sido posta a dirigir Tchaikovsky, Beethoven, e não sei quem mais; mas que o seu verdadeiro repertório é o moderno, incluindo o nosso Stravinsky, compositor do Pássaro de Fogo. E hoje dirigiu-o.

A primeira parte do espectáculo foi com música de Filipe Pires: uma espécie de fantasia moderna sobre Beethoven. Foi bom e permitiu dar sequência entre o repertório do espectáculo. O concerto para piano de Beethoven (no. 4) contou com Jean-Bernard Pommier que apesar de não me ter encantado particularmente, tocou muito bem e levou uma grande ovação. Até se aplaudiu no 1.º movimento!

Joana Carneiro
Depois do intervalo, veio o esperado Pássaro de Fogo -- o momento que se esperava e aspirava. Foi óptimo. Mas achei a parte final ainda mais óptima! Acho que começo a conseguir identificar algumas características comuns desta maestrina, como a sua passagem gradual e rápida de piano para forte.

Concerto em S. Carlos / 2010-11 / I

Fui com uma expectativa um bocado baixa em relação a este concerto. Primeiro, estava a imaginar a Julia Jones a lançar-se para o espaço com Brahms. Depois, mesmo sendo o António Rosado ao piano, nunca fiando...
Na primeira parte, tocou-se Mendelssohn seguido do concerto "Imperador" para piano de Beethoven. O pianista cujas interpretações de Chopin no S. Luiz há uns meses parecem ter chegado ao público portou-se bem outra vez.
A Julia teve uma prestação boa, como de costume, exceptuando o tal Brahms -- que também não manchou a noite. Aproveito para dizer que a 9.ª de Mahler tem muita cópia da 1.ª de Brahms.

Ovações da primeira parte.
Julia Jones cumprimenta a primeiro violino.

Martin André -- que esteve sempre a saltar entre os camarotes 32 e 34 --, logo na primeira entrada dos músicos, resolveu chamar as palmas, tendo fracassado por quatro vezes consecutivas em que soltou umas quantas palmas sozinho.
A sala estava mais ou menos como na D. Branca -- talvez até mais cheia.

"A Monsieur Massenet, Alfred Keil"

Como despedida da D. Branca de S. Carlos, deixo aqui esta imagem de que se tem falado por aqui e que esteve em falta nas vitrines no foyer.

Registado na Biblioteca Nacional sob o n.º 78.089.6 782(=1:469).
No texto: "Ao meu excelente amigo e confrade / Senhor Massenet / Homenagem da minha muito sincera e afectuosa admiração / "Serrana" / primeira ópera impressa em português / Alfred Keil / Lisboa - 1899".

Dona Branca (Alfredo Keil) @ Teatro Nacional de São Carlos, 3OUT2010

Da Obra
Como já seria de esperar, «Dona Branca» é uma uma ópera banal, tal como muitas outras do seu tempo. Keil tem sido muito referido como um seguidor de Massenet. Eu discordo. Acho que Massenet é um remate que significa "exploração sumptuosa dos limites" -- postas as suas influências básicas de Verdi e Mozart. Verdi, porque é um lírico do final do bel canto; e Mozart porque é quase óbvia a nuance que remete para esse compositor. Não sei se é por falta de génio, mas a harmonia profunda não existe -- pelo que quem assim queira interpretar pode tirar influência wagneriana. A orquestração não me parece nada de especial, visto que não evidencia nem temas dramáticos nem proporciona abordagens mais sensíveis. Bem à portuguesa, a melodia é épica (de carácter quase militar) e escasseia em sensibilidade e paixão, ao contrário do que se verifica nas suas canções que, com outros assuntos, poderiam ter sido de Chopin. Um Dinamarquês no YT descreveu-mas em tempos como "uma mistura de Chopin e Puccini".

O facto de 10 minutos antes da récita a sala estar ainda neste deserto populacional já acusava a reduzida afluência ao espectáculo.
 
Da Representação
A versão de concerto foi tradicional: no palco, com as estantes e os cantores à frente; o maestro no meio e a Orquestra Sinfónica Portuguesa atrás. Acho que já mais para a frentex era os cantores sentarem-se quando não estavam “em cena”.
Infelizmente, a récita foi praticamente homogénea. Talvez o maestro Stert tenha sido um ponto forte. A sua prestação pareceu-me bastante boa; não tão boa, no entanto, como poderia ter numa obra cuja análise é bem mais superficial do que a de um “dramalhão” a sério.
Dona Branca (Sundyte) não tem um timbre bonito. Tem uma voz muito expirada que aplica com uma técnica que parece optimizar o seu canto. No entanto, na sua ária do último acto, que eu me lembre especificamente, gritou um doloroso e estridente dó agudo.
Afan (Hudson) tem um belo timbre e não me parece que tenha algum problema intrínseco à projecção de voz, ao contrário do que se diz aqui. Simplesmente é um trapalhão que não tem lá grande técnica, empapando os sons à moda russa, produzindo um efeito quase cómico.
Adaour (Luís Rodrigues), como já sabemos, não tem um timbre particularmente bonito. No entanto, revela-se, mesmo em concerto, um bom actor inato, de técnica vocal irrepreensível, calhando bastante bem na récita. A dada altura, num sol4, escapou-lhe a voz. Até me caía a boca!
A Fada foi interpretada por Maria Luísa de Freitas. Tal como tenho escrito por aqui, esta meio-soprano revela que é mesmo uma rouca em decadência vocal e um desastre lírico. Devo salientar que até parecia estar dentro da coisa. Dançava languidamente com a música, e se houve alguém que sabia a partitura de cor -- era ela.
O coro não esteve tão mal como o tenho ouvido. Note-se que foi muito barulhento ao sentar-se e erguer-se.
Em suma, o espectáculo em si não foi nada de especial: a versão de concerto pedia encenação de grand opéra e os vocalistas não eram nada de especial -- pedindo mais encenação. Mas vendo as coisas de outra perspectiva (tal como no caso do Anel filmado de Bayreuth), era difícil e talvez não justificasse ter muito melhor.

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Johannes Stert + OSP Direcção musical
15/20
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Aushrine Stundyte Dona Branca
14/20
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John Hudson Aben Afan
13/20
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Luís Rodrigues Adaour
16/20
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Maria Luísa de Freitas Fada
9/20
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GLOBAL
14/20
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A casa esteve com lotação (assim de repente) de cerca de 50%. As ovações duraram pouco mais de 2 minutos por mim cronometrados. É de notar que houve uma violoncelista e uma violinista que vai não vai sacavam do leque e por ali ficavam a abanar-se.

No final, já com o barítono Luís Rodrigues instalado na frisa nº 3, houve a cerimónia de entrega do espólio de Mário Moreau ao TNSC. Já com a sala a menos de 30%, estiveram presentes o próprio Moreau, a viúva de Tomás Alcaide, o maestro Manuel Ivo Cruz, Jorge Salavisa (mal vestido como sempre) e Martin André -- entre outros.